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terça-feira, 1 de julho de 2008

Hoje Faz 11 Anos ...

Faz hoje 11 anos, que num acto de desespero, a minha irmã pôs fim à sua própria vida, com o disparo de um revolver (Smith??? 35 mm) … na casa de banho do Hospital de Geneve. Tive conhecimento desse facto, apenas no dia 9 de Julho.

Estava no meu local de trabalho e eis que toca o telefone. Pensei que se trataria de uma simples chamada como qualquer outra … mas não.

Do outro lado da linha … a minha mãe tentava explicar-me o que acontecera, mas não era perceptível o que dizia. Fiquei aflita, pois o meu filho André estava com ela, pelo que pensei que lhe tinha acontecido alguma coisa.

Felizmente, nada se passara com o meu filho, mas o mesmo não poderia dizer em relação à minha irmã. Foi um choque, não só pelo acontecimento em si, mas especialmente pelo desespero da minha mãe.

Infelizmente nunca tive grande contacto com a minha irmã, que fugira de casa com 18 anos, quando eu tinha apenas 4 .. . e nunca mais a vi. Noticias dela, a minha mãe só as teve, cerca de 16 anos após a fuga. A minha irmã, residia em Yverdon na Suíça, era professora de Artes Marciais e Artista Plástica, com exposições realizadas em várias cidades suíças. Já em casa, falei telefonicamente com o pai da minha irmã, tendo-me sido comunicadas as circunstâncias em que ela tinha falecido (até então desconhecidas da minha mãe).

Nos dias seguintes tivemos de tratar da parte burocrática, com vista a realizarmos as cerimónias fúnebres na Suíça. Fomos (eu, a minha mãe e o meu tio) de carro até lá, numa viagem agonizante. Fomos recebidos espectacularmente pela comunidade portuguesa em Geneve, que gentilmente, nos cederam um apartamento para pernoitarmos nos 4 dias que lá estivemos. Foi muito complicado … ir “conhecer” a minha irmã, naquelas tristes circunstâncias, mas foi assim.

Falámos com as autoridades policiais, que nos entregaram os pertences da minha irmã …. Somente uma mochila, com alguns objectos de higiene, um livro (a minha irmã adorava ler, lendo em criança, livros muitas vezes de difícil compreensão para adultos), um leitor de cassetes e um papel escrito por ela, em que pede desculpa às autoridades policiais suíças, pelo trabalho que a sua morte iria causar. Adiantou ainda, que não tinha qualquer família a quem comunicar o óbito. Estranho não é? ….. cada vez mais compreendo o desespero e os sentimentos da minha irmã.

Deslocamo-nos à sua última morada, um apartamento que tinha deixado há cerca de 2 meses. Não havia absolutamente nada que lhe pertencesse, e que nos ajudasse a perceber melhor, o que terá dado origem a este desfecho, ficámos apenas com a ideia que andara à deriva durante esse período, pelas margens do rio, em Genéve.

Fiquei chocada, pela sensação de impotência. Umas semanas antes, tinha falado telefonicamente (e pela primeira vez em 20 anos) com a minha irmã, pedindo-lhe que não deixasse que a nossa mãe morresse, sem ter a oportunidade de a voltar a abraçar. Disse-me que talvez esse encontro se concretizasse no Natal desse ano. Tal não veio a acontecer.

Ainda hoje me pergunto como é que uma vida de 39 anos se resume e se guarda apenas, e só, dentro de uma mochila???

Onde quer que ela esteja, gostaria apenas que soubesse o quanto lamento o facto de nunca ter sido possível o nosso convívio, nunca termos tido laços de amor, nunca termos sido … irmãs … e por isso, não me ter sido possível ajudá-la quando ela mais precisou!!!

4 comentários:

Mamã e Tesourinhos disse...

Olá!
Realmente a vida é muito madrasta e infelizmente nem todos têm a força que tens para continuar a lutar. Sei o que é sentirmo-nos impotentes por querermos ajudar e os outros não aceitarem a nossa ajuda, ou porque não se aperecebem que precisam dela, ou porque por puro orgulho não o querem aceitar. Vivo isto constantemente com o meu irmão.
Fica bem.
Bjs.

Anocas disse...

Se...se...
Parece que a nossa vida é permanentemente feita de muitos se...
Na verdade não haveria muito que pudesses fazer. Quando a tua irmã saiu de casa já era maior e tu eras pouco mais do que um bebé. Ela claramente quis cortar laços com a tua mãe e isso refletiu-se em ti. É uma pena não teres tido oportunidade de a conhecer, talvez isso te ajudasse a compreenderes melhor a tua própria História, a perceberes a razão de muitas coisas...
Infelizmente não foi possível, por isso agora é: "Bola para a frente que atrás vem gente"!LOL
Haverá alguma possibilidade de tentares saber mais sobre ela? Penso que isso ajudar-te-ia a ter alguma paz e lá no "outro Mundo" ela iria com toda a certeza ficar feliz e orgulhosa de ter uma irmã como tu que não a esquece e que faz da sua própria vida um exemplo de força.
A força que lhe faltou a ela para continuar a enfrentar a vida,e que tavez te transmita agora a ti...
Enfim, é tudo uma questão de Fé!

Nuno Filipe Alves disse...

ha coisas que nunca iremos saber ao certo... Também tive uma "mana" que morrer de overdose... e nunca souve ao certo o porquê...Tinha 29 anos....

existe sempre uma razão para cometer tais atitutes...

Elisabete disse...

Kerida Filipa, nem consigo imaginar o k sentiste e sentes por esta situação...
Há pessoas mais frágeis k perdem por completo a razão de existirem, sentem-se perdidas, sozinhas...
O k vejo, é k és uma mulher xeia de força pois já passaste por tanto!!
A lição, é k nunca se deve desistir de nada.
Beijocas amigas