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quinta-feira, 25 de março de 2010

A Rita

A minha filha é aquela princesinha com que todas as mães sonham e por isso mesmo, é um ser completamente diferente daquele que eu fui em criança. Todos quantos conhecem a minha filha elogiam a sua postura, o seu comportamento, e em especial a sua docura. É uma menina calma (deve ser a unica na família), ponderada, obediente e muito responsável. Eu, pelo contrário, sempre fui rebelde, desinquieta, teimosa, respondona e com uma energia inesgotável, embora devido a minha vivência fosse obrigada a ser desde cedo responsável.

A educação que incuto nos meus filhos, salvo as devidas diferenças, que se devem ao facto de serem seres diferente, é em geral a mesma.

Contudo a Rita, tem vindo ao longo dos anos, a manifestar algumas caracteristicas que não contava encontrar nos meus filhos.Por um lado a sua calma, deixa-me perplexa, pois com uma familia de stressados, espanta-me a forma como ela consegue manter a sua postura. No entanto, revela ao contrário de nós ... insegurança, que se manifesta numa incapacidade de se manter distante de nós. Faz questão que tenhamos de ter os olhos nela, perguntando-nos por exemplo quando brinca na praia se a estamos a ver. De minuto a minuto faz questão de confirmar que estamos atentos. Sinceramente, acho este comportamento perturbador. É também uma criança com uma baixa auto-estima. A Rita acha sempre que não é capaz de fazer qualquer coisa que lhe é proposta, mas a verdade é que quando ultrapassa o medo de arriscar .... faz tudo na perfeição. É uma criança muito exigente com ela, e ontem, eu própria não fui capaz de evitar comover-me. Ontem, pela manhã a Rita afirmava estar ansiosa, pois seria o dia em que receberia as notas das provas feitas na passada semana. Tentei tranquilizá-la, até porque eu, não tinha dúvidas que as notas seriam boas (depois explicarei).

Á tarde, aquando a chegada do autocarro, a Rita mal me avista, inicia um pranto que deixou todos os presentes perplexos, por não perceberem o que se estava a passar. Peguei-lhe ao colo, e segredei-lhe ao ouvido que tivesse calma, pois eu estaria ali, para a ouvir e ajudar.

Chegámos a casa e perguntei-lhe o que se passava, ao que a Rita de "beicinho" e com muitas lágrimas a rolar, me diz que recebeu as notas. Nas 3 provas tinha tido MUITO BOM (não havia excelente) pelo que eram as notas máximas. Aos soluços lá me foi dizendo que tinha tido, 91 e 94%, e que não sabia a outra nota, pois a professora esqueçera-se da folha da avaliação.

Naturalmente elogiei os resultados e perguntei-lhe porque estava tão triste se as notas tinham sido maravilhosas, e foi desconcertante ver a decepção da minha filha, quando me diz: "Estou triste comigo, porque eu queria ter 100%.

Resultado, chorava ela e chorava eu, sob o olhar de gozo do G, que acha que eu sou ... mariquinhas (naturalmente não sou, mas emociono-me com alguma facilidade).
Assim, tive uma conversa com a Rita, para que percebesse que as notas tinham sido muito boas, e que era normal não ter 100%. Contudo ela não se conforma ... pois é, segundo ela, sua obrigação ter 100%.

Esta situação, confesso não me surpreende ... mas preocupa-me muito. Quando exponho a situação a alguém, é-me dito que é bom que assim seja, pois é sinal que é empenhada e responsável. É verdade que é, mas a verdade é que a Rita, anda com os livros e os cadernos debaixo do braço para tudo quanto é sitio, a primeira coisa que faz quando se levanta é ir buscar os livros para fazer exercicios, quando está a ver TV está sempre a juntar as letras na tentativa de ler as legendas, arrumou todas as suas bonecas e brinquedos, pois não quer brinquedos, só quer livros e cadernos de actividades. É esgotante estar um dia com ela, pois só fala das letras, contas e afins. Quando em passeio não disfruta da paisagem, já que quer ir no carro a ler (já tem ficado mal disposta por isso mesmo).

Quando andamos num parque infantil, é frequente querer regressar a casa .... para fazer os trabalhos (e devora os livros num instante).

Quando a deitamos, assim que saímos do quarto, senta-se na cama, com as pernas cruzadas a ler e a fazer os trabalhos dos já muitos livros de actividades que temos adquirido. É demais ... e tudo quanto é em excesso ... não é bom. Este é um comportamento absolutamente obessessivo ... que me preocupa. A psicóloga da escola, não tem mãos a medir, pelo que (embora ainda não tenha falado com ela) é pouco provável que me possa ajudar. O G acha que estar a recorrer a um psicologo poderá não ser positivo (o G não nutre particular afininidade por psicologos), pelo que, é seu entender que devemos deixar andar e não dar importância. Eu pelo contrário, acho que até que alguém credível me diga que é normal (algo que duvido muito que me possam dizer) me devo preocupar.

Já algum de vocês se deparou com uma situação como esta? Se sim, agradecia se possível que me dessem a Vossa opinião.

Na minha modesta opinião, as crianças devem estar conscientes das suas responsabilidades, mas com 6 anos, há que cumprir as obrigações escolares, não esquecendo contudo, que são crianças e que estão na idade de brincar.

6 comentários:

A autora disse...

Ola Filipa.

REalmente,gostei muito de conhecer a tua filhota.Muito doce.:)

Tenho que concordar contigo quando dizes que esta situacao nao e normal.
Acho que isto e mesmo obssessivo e que deves consultar um medico para teres uma segunda opniao.
Ha algum tempo, um amigo meu teve aconselhamento online de um psicologo. Ele expos o caso e o psicologo disse-lhe o que achava,de graca. Se quiseres eu tento saber o mail do Senhor em questao.
Existe tb um site de uma medica que se nao me engano chama-se,Saudinha.
Poderas sempre pedir uma opniao se assim desejares.

Desejo que estejamos ambas erradas e que isto nao passe apenas de um grande amor por livros e afins.:)
Beijoca

pedradababy disse...

Oi Filipa.
Bem, embora não seja exactamente igual, a descrição faz-me lembrar muito a minha irmã. Só que ela era mais por leitura e não tanto por matéria escolar. Ela devorava livros e livros, não fazia mais nada a não ser ler, ainda hoje os presentes de Natal são só livros de toda a gente - eu ainda acrescento os mon cherry e meias para ler mais confortável e a adoçar a boca. A minha mãe manda-va desligar a lu para dormirmos e ela escondia um candeeiro debaixo dos cobertores e ficava a ler até às tantas. E lia de tudo, desde od mais complexos aos infantis. Um dos escritores preferidos era o Jorge Amado, leu todos os seus livros e perdeu a conta às vezes que leu Teresa Baptista cansada de Guerra. O meu Pai ficava piúrço porque não achava leitura apropriada mas não dava para proíbir porque ela agarrava-se aos livros e ai de quem os tirasse. Não queria ir brincar com ninguém, não se ligava a grandes grupos na escola e a minha mãe mandava-a sair (quando adolescênte) com os amigos mas ela trocava tudo, mas tudo para estar num sofá a ler. Lembro-me que uma vez fui uma semana para o Meco, para uma casa de um amigo e ela foi junto. O homem tinha um monte de livros numa estante, acreditas que ela não saiu de casa a semana inteira??? Nós na praia, a passear e ela no sofá! Parece mentira. Bem, mas ela sempre foi uma pessoa normal tirando esta situação. É extremamente workahoolic, mas sempre teve os namorados dela,, casou, teve filhos emfim. O seu maior defeito é que tirando o trabalhar horrores, em casa não gosta de fazer nada e não faz. Não tem capacidade de organização em casa e deixa tudo andar, lá está. Se chegar a casa e se enfiar no sofá a ler um livro esquecendo de tudo o resto, é normal.
Sim, acho os sinais da Rita algo preocupantes de facto mas não demasiadamente alarmantes. Acho que mais uma vez estás a fazer a coisa certa ao ir falando com ela, tentanto que ela deite cá para fora o que vai na alma e tentando passart valores de vida.
Beijinhosssssssssssssssss

Kelly disse...

É claro que os exageros nunca são muito bons e ela sentir essa frustração dessa maneira é um pouco...demais, para a idade dela, mas quem sabe não é a maneira de ser dela, responsável, organizada, estudiosa?
De qualquer modo se conseguires falar com alguém mais especializado, parar trocares ideias fosse bom.
Como ela é bastante inteligente e perspicaz, não sei se o facto de saber que vai a um psicólogo a irá perturbar....
Desculpa não poder ajudar mais....

:((

Anónimo disse...

"A educação que incuto nos meus filhos...é em geral a mesma."

Se assim é, é preocupante, quanto mais não seja, a julgar pelos resultados de um dos filhos.

Mamã e Tesourinhos disse...

Olá, olá!!!

Não acho que seja muito bom para ela ser assim tão prefeccionista... acho sinceramente que procures ajuda dum especialista.

Fica bem.
Bjs.

quica disse...

Olha, tenho 33 anos e revi-me na tua filhota. Também era assim. Com 5 anos já tinha lido a colecção dos 5, e mal acordava a 1ª coisa que fazia era pegar num caderno de exercícios e só parava quando estava todo acabado. Resultado: uma adolescente com dificuldades de socialização, uma adolescente que dizia em casa que os professores não sabiam dar aulas, uma adolescente que não podia falhar e por fim uma jovem hiper ansiosa com ataques de pânico.

Minha querida, isso que a tua filha tem não deve ser ignorado. Honestamente não sei o impacto que uma psicologa terá na cabeça dela, mas talves uma psicoterapia. Há psicoterapias conjuntas. Penso que ela precisa conhecer melhor todas as potencialidades do mundo, como é bom fazer outras coisas e que falhar é normal e saudável pois só assim se cresce. Conheço de nome uma psicóloga espetacular que acho que te pode encaminhar (mesmo por mail) para a pessoa indicada. Procura na net o nome Madalena Lobo e entra em contacto com ela via email, ela responde tenho a certeza.

Beijocas e felicidades